Psicanálise em contexto empresarial

Dejours (1998) afirma que o trabalho é inevitavelmente atravessado por situações de sofrimento, derivadas das exigências de produtividade, dos conflitos interpessoais e da busca incessante por resultados. Nesse contexto, o sofrimento surge como uma consequência do confronto entre o sujeito e as demandas do Outro, representado pela organização, pelas normas e pelos imperativos do mercado.

Na perspectiva lacaniana, esse sofrimento está relacionado ao excesso de gozo – um gozo que ultrapassa o limite do prazer e se torna destrutivo. No trabalho, esse gozo pode se manifestar na compulsão por desempenhar, no esforço em superar metas inalcançáveis ou na identificação alienante com os valores corporativos. Esse movimento, no entanto, frequentemente resulta em esgotamento psíquico, adoecimento e, em casos mais extremos, na loucura.

Apesar das potencialidades destrutivas do trabalho, Dejours (1998) também aponta para sua dimensão criativa. Ele sugere que o trabalho pode ser um espaço de reinvenção, onde o sujeito, ao enfrentar as adversidades, encontra formas de mobilizar sua inteligência prática, sua criatividade e sua capacidade de transformação.

Na psicanálise lacaniana, a criação no trabalho está ligada à articulação entre o desejo e o Real. Enquanto o gozo excessivo leva à alienação, o desejo opera como uma força que impulsiona o sujeito a buscar novas formas de lidar com os desafios e de produzir sentidos. A criação, nesse contexto, não é apenas a produção de algo novo, mas também um movimento de ressignificação e reconstrução de si mesmo no campo do trabalho.

Para que o trabalho seja um espaço de criação, é fundamental que as organizações promovam condições que permitam ao sujeito elaborar seu sofrimento. Isso inclui o reconhecimento das contribuições individuais, a valorização da subjetividade e a abertura para o diálogo e a escuta. Nesse sentido, o trabalho torna-se um campo de subjetivação, onde o sujeito pode articular seus próprios desejos com as demandas externas, criando um equilíbrio que permita a realização pessoal e coletiva.


Referências Bibliográficas

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de Psicopatologia do Trabalho. São Paulo: Cortez, 1998.


Maria Odete G Galvão

Psicanalista | Diretora do NUPPAC